14/11/2009

Para minha Bernardete



Quando

estive estou estiver

emaranhada nas grades

de pensamentos gestos equívocos desatinos

seu alimento

maternal e divino

esteve está estará

fazendo das grades um vôo lindo.

04/11/2009

Again

De novo
faz frio.
Reciclagem
nos armários,
reciclagem
na pele,
e,
de novo,
saudade
do Rio.

28/10/2009

Madrugada

Um silêncio manso
feito de memórias
desejos
e breves palavras
sem letras ou gestos
desperta comigo
às quatro.
Sou, na madrugada,
um anúncio vivo
da própria vida
que se cala primeiro
para dizer depois.

01/10/2009

Maria de Todas as Graças

À noite,
ela me agasalha
em seu útero de luz
e sentimento.
De dia,
ela me acompanha,
indicando trilhas
com seus passos.

Onipresente.
Mãe extremada.
Tudo,
quando a vida
parece dizer "nada".

Contar das graças
que recebo,
deixar correr grata
a emoção em lágrima,
tudo é pouco
quando todas
são as bênçãos
de minha Maria,
nossa Maria,
a que vela por nós
quando imaginamos
estar sós.

24/09/2009

Tia Rachel

Eu sou a "quase filha",
e, por ser "quase",
tenho mais que lágrimas:
tenho aquela parcela
de comedimento
aquela capacidade de lucidez
que só tem
quem não é carne viva
por inteiro.


Você gostaria dessa foto.
Eu sei que gostaria.
Nela você é o que sempre foi.
Grande estrela.
E você sabia que era.
E, por isso, era
escandalosamente
você.
Por isso,
as feridas abertas na carne,
as unhas fincadas na terra,
o olhar agudo e a mulher terna
(para quem sabia
a estrela que era).
E, por isso, se foi assim:
deixando a dura lição
de partir feliz e radiosa
contrariando a máxima
de que a morte
é uma despedida triste
da alegria da vida.

Mais uma lição da minha tia:
partir majestosa,
dando um olé na vida,
para seguir estrela
pela próxima.
Que orgulho tenho
de que chegue assim,
inteira,
quando antigos prognósticos
diriam: "se foi a pobre Rachel..."
Pobre é quem não sabe
dos tesouros que você
soube criar
transformando pó em ouro,
alquimista dos reveses.

Vai, minha tia,
minha estrela.
Sua luz fica aqui
brilhando nas jóias irmãs
que tenho
e um pouco em mim
também,
"quase filha" que fui
nos braços seus
que me embaralaram
quando vivi meus reveses.

As meninas


Explicando: essa crônica foi escrita em 2006, como homenagem a todas as amigas que chegaram à minha vida como alunas de pintura e se tornaram "minhas meninas", assim como eu me tornei menina delas. Engraçado dizer que, na época, eu me despedia do Rio e me sentia emocionada com a distância. Elas se despediram de mim e se reuniram para estar comigo quando eu fui ao Rio, meses depois. Em 2008, partia eu novamente, agora para a Espanha. E elas, o que fizeram? Despediram-se de mim, comemoraram comigo meu "casamento por acontecer" e demonstraram, mais uma vez, que eram amigas "para sempre". Fui ao Brasil e lá estavam elas me esperando (eu agora acompanhada do maridão e da Isinha) para um café da manhã, com um buquê de rosas vermelhas que ficou materializado para sempre, como elas. Reli a crônica outro dia e resolvi publicá-la como forma de dizer que minhas meninas foram, são e serão um presente constante em minha vida. Beijos a cada uma! Agora a crônica...

As meninas


Não conheci todas as meninas de uma só vez. Elas entraram em minha vida de diversos modos e em diversos momentos, uma de cada vez ou em dupla, às vezes em trio ou quarteto. Por indicação, por amizade, por curiosidade, por necessidade, por solidão, por alegria. Não importa. Sozinhas ou acompanhadas, no verão ou em outra estação qualquer, cada qual, desde a primeira palavra trocada, marcou sua imagem dentro de mim de forma absolutamente única.


E como eram graciosas minhas meninas! Negras, loiras, morenas, mulatas, magrinhas, cheinhas, bem cheinhas; simples, em suas roupas despojadas, vaidosas, em suas roupas quase de festa, sensuais, em seus decotes; senhoris, em seus óculos para as vistas cansadas; juvenis, em suas risadas de meninas - ainda que fossem meninas, adolescentes, balzaquianas, quarentonas e por aí vai. Bem-humoradas, silenciosas, repletas de histórias, discretas, guiadas pela fé, desinteressadas de deuses, amadas por seus companheiros, amando-se sem eles, partes de famílias curiosas e enredadas em afeto e conflito, como são todas as famílias. Amantes de cães e gatos e pássaros; explicitamente avessas à presença de animas; exageradas em medos e culpas, exageradas em generosidade e perdão. Eram, de fato, graciosas como ninguém, minhas meninas.


Habilidosas, é preciso dizer. Umas eram doceiras de mão cheia, sempre lambuzando nossas almas com os sabores achocolatados e os açúcares coloridos que brotavam das muitas travessas nas muitas festas. Outras, rainhas dos salgados, sempre inundando nossos espaços com petiscos criativos, de receita antes secreta pronta a ser generosamente oferecida. Algumas, costureiras fabulosas, volta e meia apresentando criações coloridas e competentes, carregadas de estilo e personalidade. Tantas artistas de cores delicadas e paixão por flores; outras tantas, artistas de forma viva e variada. Quantas vezes as vi trêmulas, ensaiando os primeiros passos para, em seguida, passarem a me ensinar sua dança. Quantas vezes as ouvi inseguras, prenunciando as dificuldades, para, logo adiante, me relevarem toda a sua capacidade de superação. Habilidosas, sim, e muito, minhas meninas. Cada qual a seu modo, com agulha, lápis, pincéis, espátulas, textos, farinhas ou temperos. Cada qual no seu ritmo. Cada qual de forma absolutamente única.


Eu me diverti demais com as meninas. Ora porque uma piadista lançava a palavra cômica no meio dos gestos concentrados de olhos e mãos; ora porque a vida é mesmo engraçada no encontro das coincidências e das situações idênticas que revelam nossa humanidade. rimos dos artistas, das pessoas públicas, das crianças, das graças de nossas crianças, dos equívocos e gafes nossos e alheios, de nós mesmas. E, é claro, rimos muito dos homens. Esses homens tão complicados e óbvios, tão inseguros e fortes, tão nosso e alheios a nós. Definitivamente, rimos muito da vida e deixamos, no ar do ambiente que nos acolhia, um riso perpétuo que sempre acenderá o presente.


Também chorei com as meninas. E as vi chorar e elas assim também me viram. Mais do que isso. Além de presenciarmos os choros umas das outras, tivemos as palavras certas para torná-los mais amenos, menos dolorosos. Sofremos pelos motivos mais variados: da morte à separação; da doença à traição; da dificuldade financeira ao conflito familiar; da solidão à invasão de privacidade. E nossos choros, muitas vezes, sequer tinham lágrimas. Eram choros secretos, que transbordavam na alma e reverberavam sombra em vez de luz. Cúmplices guardávamos nos abraços a certeza da lágrima escondida que morava na outra, pedindo colo e gesto fraterno, pedindo força para secar e se fazer esperança.


Cresci com as meninas. Cresci apoiada por elas, que foram irmãs, filhas, mães, sobrinhas, tias, madrinhas, conselheiras, adivinhas, anjos, braços de Deus na terra as vezes muito ressecada em que vivemos.

Hoje me derramo em gratidão por essas meninas. Carrego cada uma, absolutamente única, na pauta musical que rege meu peito, fazendo vibrar as cordas de minhas emoções. Trago cada uma, absolutamente única, no painel colorido pelas tintas da lembrança boa que atravessa tempos e espaços como uma flor permanente nunca alcançada pelo envelhecimento. Celebro cada uma, de forma absolutamente única, feliz pelo fato de ter vivido a experiência de, um dia, tê-las recebido em minha vida.


Hoje me derramo em saudade, mas não de saudade sofrida, de quem perdeu e lastima... Minha saudade é límpida como um cristal furtacor, que guarda, nas pinturas mais lindas, as faces das meninas.


Hoje me preparo para estar mais distante, no que existe de léguas na palavra distância. No entanto, também hoje me alegro com o reencontro que reafirma o que na palavra distância extrapola as léguas para ser amizade verdadeira.


Absolutamente únicas, minhas meninas viajam comigo. Para sempre.


Amo vocês minhas meninas.

Natal, 2006.

Em tempo: uma homenagem especial à menina Ignísia, que nos deixou cheias de saudades, mas que continua viva na lembrança de seu jeito inesquecivelmente engraçado, ingênuo e picante (ao mesmo tempo), curioso e generoso, carinhoso e cheio de histórias. Certamente as outras meninas assinarão embaixo. Onde quer que esteja, receba os beijos de suas meninas, D. Ignísia!!!!!


19/09/2009

¡Madrid Mía!

Criei o blog ¡Madrid Mía! para poder postar o que esta cidade anda provocando em mim. Quem quiser passar por lá: http://madridmia.blogspot.com/.

Buhardilla

luzes idéias
livros telas
canto descanso remanso
tintas recortes
fotos velas
um pouco de tudo
o nada
e eu
metida nela.

12/09/2009

Despertador

O que me toca
nesta hora
é susto.
Não.
A vida, sim,
é susto
................................sem botão para apertar
hora após hora
susto após susto
até o despertador
................................tão indesejado das gentes.

05/06/2009

Mimo

Às quatro da manhã
pedaço de nada
miado malhado amigo
faz café comigo.







18/02/2009

Rapidinho

Entre tintas,
paredes,
cores previstas,
improvisos,
mãos e mente
coloridas,
mas ressecadas
e antigas,
abre-se a fenda do tempo:
estou aqui
(mesmo esquecida de mim).

27/12/2008

Ué?

ué?
se foi?
foi.
e agora?
nada...
(que é tudo!)
UFA!

Lista de projetos para 2009

Depois de tantos vôos, descobri que listas são desculpas para não voar.

04/10/2008

Poetar... por quê?

Um corpo poroso. Um mata-borrão. Um sentimento de urgência atado ao dia-a-dia. Movimento de resistência às forças que estagnam. Mola-mestra para as tentativas de tradução dos enigmas do mundo. Desejo vivo de ir além da morte. Filtro colocado na boca do esgoto. Rosa-dos-ventos. Biruta, indicando os ventos; biruta, amalucando o planeta. Galo cantando manhãs. Cigarra cantando tardes. Coruja piando noites. Panfleto vermelho jogado no chão. Munição, arma, desejo de guerra. Mansidão, flor, desejo de paz. Teia de aranha nas prateleiras. Folha no chão dizendo “É outono!”. Suor no rosto dizendo “É verão!”. Cachecol no pescoço dizendo “É inverno!”. E todas as primaveras no corpo ao mesmo tempo. Ampulheta acionada pela voz da urgência. Onda batendo forte, onda serpenteando mansa. Farol no meio do mar. Oásis no deserto. Pronto Socorro. 0800. Palavras gritando contra o silêncio que aflige. Palavra revestida de outra palavra. Palavra reinventada na boca de espera. Palavra ensimesmada querendo amigo. Palavra em estado de graça plantada na realidade sem graça. Palavra ainda sem nome nascendo dos acontecimentos. Palavra surda e muda com linguagem de sinais própria. Palavra com medo. Palavra sem medo. Palavra sem dinheiro. Palavra que não se cala. Palavra que canta. Eis o poeta.

Por que poetar? Porque, além das livrarias e das bibliotecas, além dos comércios e dos críticos, além muito além do improvável sucesso, há, no poeta, uma angústia incessante de dizer, no sentido transitivo de expor, enunciar, exprimir por palavras; proferir; discursar; recitar, declamar; mandar, ordenar; rezar; mostrar, indicar; referir, narrar; dar a conhecer, apregoar; apontar, censurar; supor, imaginar; afirmar, asseverar; estar inclinado a crer, ter opinião, parecer; chamar, denominar; aconselhar, persuadir; aquilo que lhe vem como verbo intransitivo. Poetar, porque, acima das antologias e das histórias literárias, acima das feiras e das bienais, acima muito acima das listas dos mais lidos, há, no poeta, um livro infinito a ser escrito em forma de livros finitos. Há, no poeta, um menino sempre vivo que fala o que sente porque é menino, e um velho, muito velho e sabido, que converte em símbolos as palavras do menino para que este não apanhe e deixe, por isso, de ser menino.

E porque o poetar não exige tempo nem espaço para existir como pulsão; e porque o tempo e o espaço se inscrevem no poetar como matéria-prima de uma fábrica pré-existente; o poeta (e o contista e o cronista e o romancista e o dramaturgo e todas essas palavras no feminino), escravo do fabricar, vive, ele próprio, além das fronteiras. Ontem, hoje ou amanhã, não importa. A poesia é o mundo sendo. A poesia é o gerúndio. E o poeta, o galo, a cigarra e a coruja sustentando bravamente o gerúndio da poesia.

Christina Ramalho
(para Filipe e seus alunos do PH, no dia 30 de setembro de 2008)

11/04/2008

Chuvas

Chove no nordeste. Chove em Natal. Minha cidade-sol anda molhada e esquecida de seus azuis. Todavia, ainda linda, irradia aquela paz nordestina e, de vez em quando, deixa que alguns raios atravessem as nuvens como a brincarem de nos dizer que logo voltarão a saracotear pelas praias.

Chove no nordeste. Natal continua linda. Mas há gente sofrendo. Gente mergulhada na água antes tão escassa e desejada. Como em Vidas secas, a chuva parece debochar de destinos tão carregados de privações. Assisto às reportagens e me pergunto: o que temos feito por essa gente? Por que tanto sofrimento batendo em nossas retinas como um espelho? E por que tão poucos reflexos a espargir soluções?
Chove no meu pensamento. Alagada como o nordeste, a mente se espanta com o fato de eu conseguir extrair alegria da vida, da cidade, do sol e da tempestade enquanto há gente boa, gente trabalhadora e sofrida sem motivos para qualquer alegria. Que egoísmo é esse que me faz conseguir ser feliz em meio a mulheres de rostos doces e marcados que choram suas casas perdidas, seu abandono?
Chovem paradoxos no mundo. E eu, repentinamente, me vejo do lado mais cruel. Aquele onde residem os que perderam muito pouco e acham que sabem de tudo.
(11 de abril de 2008)

16/03/2008

Alice, a menina-arraia

Hoje, dia 16 de março, foi dia de praia. Tabatinga, Nísia Floresta, Rio Grande do Norte. Sem as filhas, que sempre compõem comigo o trio Chris/Gabi/Isa, a não ser que o plano seja "praia", tive a alegria de uma pequena parceira: Alice, minha sobrinha de 10 anos de idade.
O céu estava quase limpo. Uma ou outra nuvem dava à paisagem aquele ar de "motivo para uma pintura", já que nuvens brincando de desenhos no céu sempre enfeitam as marinhas. A cor do mar trazia azuis de várias gamas, e a temperatura das marolas certamente impediria que o desejo de abandonar as águas surgisse. Assim, antes dos mergulhos, Alice e eu passeamos pela beira do mar sem pressa. Eu, mostrando a ela a beleza daquele pedaço do Rio Grande do Norte; ela, alegre, perseguindo os filhotinhos de siris até conseguir colocar um em sua mão. Depois do passeio, enfim, a água.
Alice, menina-arraia, tornou minha manhã um aquário natural, onde a "tiabarão" ou a "chrisbarão" e a pequena e loira arraia brincavam de lutar, pular, abraçar, perseguir, e mesmo, simplesmente, largar o corpo no ritmo das marolas e entrar em sintonia com o indescritível. Menina-arraia levada e carinhosa, era só abraços e risos, sem saber que, com seus gestos, dissipava a solidão da tia (que anda em tempo de maresias) e preenchia a saudade que todos os dias 16 de março sempre trarão. Talvez, naquele oceano de azuis, um Arthur golfinho brincasse também e, assistindo à alegria da priminha e da mãe, que há dezoito anos vive sem ele, se sentisse igualmente pássaro e livre, pronto para partir novamente, depois do reencontro anual com aquela mulher que jamais esqueceu os olhinhos azuis do filho. Brincadeira e lembrança tinham sal, mas sal da vida, não da morte.
No final, ritual de caranguejo, casquinha-de-siri, sorvetes e cocas zero cumprido, voltamos juntas cantando o "Pelados em Santos" e o "Rindo à toa". Mar, amar, brincar, cantar. A rima pobre de sempre fazendo rica a vida da gente.
Em Tabatinga, Alice, menina-arraia, compôs um dia feliz para mim, quando eu pensava que teria um 16 de março sem água, sem azuis, sem peixes, sem brincadeira. Ei, menina-arraia, valeu!!

13/03/2008

Tempestade em Natal

Berros sacodem as janelas do meu quarto, antecipando o despertador. Tempestade em Natal. Entreabro as cortinas. Meu azul fez-se branco e bravo, e chora violento, espargindo angústias sobre telhados e vidros. Buscar Apolo é uma impossibilidade tão grande, que imediatamente recolho olhos e desejo e volto a buscar as cobertas para esconder minha solidão.

Talvez a cidade brinde essas águas. A sede do sertão será aliviada. O calor deixará de ter a força aguda que franze as testas. As flores das avenidas certamente estarão viçosas amanhã ou depois, quando a chuva se for. E o curso da vida seguirá nos espelhos d’água que ainda ficarão nas avenidas.

Mas eu contarei no relógio o tempo que me separará de Apolo. Ele é o único que sabe derramar luz em mim.

13/03/2008

05/03/2008

Uma crônica-ode por falta de versos competentes

Ter poetas entre os amigos é algo marcante na vida de qualquer pessoa. Embora poemas alheios a seus autores sejam acessíveis a nós, bastando, para isso, que busquemos tê-los por perto, quando quem está próximo de nós é um poeta (ou uma, registre-se bem), não tem jeito: algo que muitas vezes nem pensaríamos em buscar se apresenta diante de nós, instigando-nos o tempo todo a romper com a monotonia do pensamento 3 X 4. Um amigo poeta é colírio, é susto, é aquele par “anjo/demônio” soprando gracejos em nossos ouvidos. Pensamos: “o mundo é uma merda!” E nosso amigo poeta diz a mesma coisa. Mas não diz a mesma coisa. Diz mais. Diz diferente. Diz de um jeito tão danado de bom, que, de repente, passamos a olhar para o tal “mundo merda” com olhos que não tínhamos. E, como uma contradição, ao olharmos para o mundo através dos olhos que a poesia construiu em nós, ele, o mundo, também de repente parece não ser “tão merda” assim... afinal, não é que nele habita um poeta? Falo isso e me lembro do poema “Fardo (a consciência do zero, 1981)”, do livro Rarefato (1990), de Frederico Barbosa:

tenho que
tentáculos afiados tentando
fincar a vista futura feito
oráculo

não sou cego não sossego

Raio de poeta que nega Homero para ser um. Raio terrível de poeta que brinca de dizer quão aguda é a palavra que percebe além de nós, que guarda lince nos olhos, angústia na consciência do vaticínio que nem vaticínio é, porque não há sequer espaço para a consolidação da imagem que se previu. O mundo acelera o poema, que morre logo depois do ponto final. Isso, poeta, não use o ponto final. Não sossegue. Nunca.
Ter poetas entre os amigos é essa coisa angustiante de se ver invadido/a por esses tentáculos afiados e ter que sobreviver sem as sobras do que éramos antes do poema. Poemas cuspidos em nossa cara, em nosso cotidiano, em nossa mesquinha necessidade de pularmos contentes dentro da bolha que nos protege, sem perceber que ela é de sabão. Amigos poetas, com sua chuva de sentidos, exigem de nós reinaugurações constantes. É um “reinventar-se” que não acaba nunca. É aquela consciência de ser o solitário entre as gentes, de ser o sobrevivente cuja reinauguração jamais é suficiente, como me faz recordar outro amigo poeta, o Luiz Otávio Oliani, no poema “Fatalidade”, do livro Fora de órbita (2007):

a vida pulsa em hiatos
e não sei pedir socorro

camaleão fora do ventre
transmudo a cor à revelia

mas a morte não é daltônica

Outra vez sem ponto final. Outra espetada na consciência tão placidamente sentada na ante-sala do existir, isenta de poemas, como uma vida (?) confortável deveria ser. E, no entanto, todavia, contudo, porém, vem-nos o amigo poeta, com seu poema dizer não o que precisamos ouvir, mas o que precisamos ter para dizer. E a não daltônica morte visita nossa ante-sala soando todos os alarmes e dizendo: “Não há sala!! O que você está fazendo aí? Esperando o quê?” Ele não pede socorro, mas nos socorre. Sina maldita.

Ter poetas entre os amigos é, assim, estar sempre cutucando aquela feridinha antiga, numa espécie de ritual sadomasoquista, em que somos algozes e vítimas. Algozes, porque amamos nossos amigos poetas mais do amamos a nós mesmos, logo, com eles aderimos à desconstrução do mundo e viramos guerreiros absurdos com baionetas que atiram fonemas e ferem alguns poucos ouvidos atentos. Vítimas, porque, embebedados por suas palavras, saímos mesmo por aí, atirando em tudo, principalmente em nós. E, no entanto, todavia, contudo, porém, e todas as adversativas que os amigos poetas nos trazem, ressuscitamos a cada novo poema, como conseguiu fazer Lau Siqueira, com seu “Bobo da corte”, do livro Texto sentido (2007), quando chegar aos 44 me pareceu uma convocação iminente ao inventário. Não precisei fazê-lo. Estava ali, no poema, disfarçado em outro número:


o que sinto nesses quarenta e seis vértices ungidos
que ora espetam ora aguçam os sentidos
é que cada momento vai roendo os ossos e a
dormência do impossível tomando conta de tudo
que é a b s o l u t o

o que comove nesses anos cumpridos entre
verdades amargas e doces mentiras é que apesar
de tudo ainda pude semear as sobras da minha
inquietude

poemas derramados espalhados no tabuleiro do
que tanta vez provoca o asco afirmativo da
existência

o que colhi entrementes nem sempre foi da
melhor safra mas ainda estou aqui escrevendo
versos ligeiramente aptos às consagrações do
esquecimento

o vazio dos olhares atônitos já não apavora
o medo há muito perdeu o sentido

ouço o ruído das horas passando ao largo de uma
vida que se cumpre para muito além das paisagens
guardadas na retina

e sorrio como se fossem oráculos os galhos do
cajueiro que vejo pela porta entreaberta sob o
mantra estridente dos sagüis que resistem
nos esgares da mata

habito meu silêncio
e ouço atentamente a imensidão e a quietude
de tudo que grita e se move

o que está posto é muito mais do que posso
por isso sigo em frente
derrubando os muros que possam afastar
as matilhas da ternura

as águas que passaram nesse rio jamais ficaram
turvas por isso não me curvo e

vou indo vou

rindo de tudo

embriagado com minha própria sede

como um homem que transita pela consciência
dos caminhos jamais percorridos

vou passando

passeando pelo mundo



Raio de amigo poeta que sempre sabe antes de nós, que parece rir das neuroses que, sob suas rédeas, se fizeram metáforas, esvaziando as reverberações super apelativas de nossas emoções indomadas. Ele doma. Molda. Apropria-se. Indo e rindo de si, de tudo, de nós, passeia mesmo. O que, em nós, é inventário, nele é verso malemolente, rio sinuoso de palavra trânsito. Que passa. Mas sem ponto final. Outra vez. E o “mundo merda” é tão mais que isso, só porque ele está ali. O inventário dói. E batemos palmas para a dor, porque nem mais dor sabíamos sentir.

Ter poetas entre os amigos é, enfim, ver-se, como eu, ridiculamente compelida ao texto ode, ao puxa-saquismo deslavado, àquela vontade de dar um abraço bem grandão nesses sujeitos tão descaradamente sábios e néscios, malabaristas 24 horas por dia caminhando nos fios do desejo que a palavra tece e arrebenta bem no meio da caminhada. Cai o poeta e nos leva (amigo...) com ele. Do tombo, surge outro poema. Nele. E outro hematoma. Em nós. Merda de mundo legal esse em que “merda” pode ser bom agouro. Sorte. Isso é ter poetas entre os amigos.

Christina Ramalho
5 de março 2008
(inédita)

23/01/2008

Abertura do canto I do livro Musa Carmesim

Parto não porque queira
ou porque seja mais sensato
parto porque é outono e eu sou a folha
que lentamente derrama na estrada o seu fim.

Parto não porque possa
nem porque deva
nem porque esqueça.
Parto porque é dia e eu sou a luz
da última estrela.

Quem sabe parta porque só assim
possa renascer em mim outro ser.
Quem sabe parta porque ter um fim
é destino certo de toda viagem.

Mas a despedida
atenho adiada
e calada fico
vendo-me partir.
Morro como o sol no horizonte da lembrança
folha que o vento leva em sua andança
e que nenhuma primavera
traz de volta ao amanhecer.

(Musa Carmesim. Campos do Jordão: Vertente, 1998)

18/12/2007

Vendaval

Mordo suave
mas precisa
a ponta carnuda
do adâmico seio.
E o vendaval,
rasgando tudo,
destrói lençóis
e me parte
ao meio.

(publicado em Poesia viva em revista, 2005, pela UAPÊ)

13/11/2007

Mia

Sempre vi os gatos como "bichos cercados de garras por todos os lados". Apesar de lhes admirar a beleza, fotografá-los em poses diversas, ter um gato ou uma gata, definitivamente, parecia algo incongruente com meu modo de ser e de sentir.
O mistério dos gatos jamais me fascinou a ponto de desejá-los inseridos no meu dia-a-dia. Ao contrário, a transparência dos cães, sim, motivava-me, afinal, é realmente prazeroso contar com a fidelidade de nossos cães quando o mundo tem sido tão "infiel" a nossos sonhos.

Todavia, a vida, com suas surpresas, trouxe-nos Mia. Ela veio após duas experiências com cães. Apesar de não ser muito afeita às rotinas que os animais domésticos nos impõem, acredito que a infância, acompanhada de um animal doméstico, é mais intensa e significativa. Por isso, quando Gabi e Isa começaram a se interessar por animais, não hesitei: "sim".

A primeira cachorrinha que tivemos, Fifi, uma poodle branca e bem magrinha, morreu aos sete anos, deixando um vazio em nossa casa. Ela era delicada como uma "cachorrinha de madame", mas não a tratávamos com "frescuras". Ela era "fresca" por natureza. Após fazer xixi, levantava uma das patinhas e saltitava com a outra para não "tocar" na "sujeira"...

Quando tornava banho, parecia ganhar "ares de superioridade" com seu lacinho e seus pompons. Mas era igualmente inteligente. Sabia, por exemplo, abrir minha bolsa quando percebia haver balas ou chocolates lá dentro. Às vezes, à noite, subia sorrateiramente em nossas camas, enroscava-se no cobertor e por lá ficava até ser descoberta. Seu único defeito: latir insistentemente quando algum barulho do lado de fora surgia. Nada adequado para um cão de apartamento... Um dia, quando estávamos viajando, ela teve uma crise hepática e morreu em poucas horas. Choramos as três, em meio à culpa (afinal não estávamos por perto) e à saudade (talvez ali nós tivéssemos nos dado conta claramente de sua importância em nosso cotidiano). Bem, como a infância já tinha se transformado em "pré-adolescência", sentenciei: "Chega de animais!".

Sentença revogada. A pedido das filhas e, confesso, mortalmente atingida por uma paixão à primeira vista (ou à primeira vitrine), dois meses depois, providenciei outra cadelinha: Nina, uma beagle linda e levadíssima, que quase me levou ao desespero com sua correria, sua fome, seu jeito estabanado. Olhava para ela e me via em sua companhia quando as meninas já estivessem em suas próprias casas. Mas sua determinada teimosia e desobediência às "normas de higiene" da casa me diziam que essa "longa convivência" estava bem longe de ser possível. Fotografei, filmei, comprei acessórios, brinquedos, caminha, etc, e tal. Mas... Não! A imundície invadira meu lindo apartamento. Dei fim àquela tortura e, com o coração partido, entreguei Nina para uma pessoa apaixonada pela raça, que até hoje a trata com delicadeza e ternura admiráveis. Consenso familiar: chega de bichos.

Consenso revogado. A mais nova quer um gato.

Gato? Pensei. Gato é meu signo no horóscopo chinês... E daí? Os gatos são belos e comportados. Gatos não sujam tudo. Não necessitam de "faxina semanal". Por favor, mãe, eu cuido. Eu limpo. Gato? Lembrei-me do Gato de Botas (espertíssimo), da egípcia gata-deusa Sakhmet-Bastet, dos gatos da sorte orientais, do gato preto pronto a cruzar os caminhos dos desavisados, do Gato Félix, do Garfield, dos Aristogatas, do Tom... Mas e as unhas? E as doenças? E a toxoplasmose? Não é esse o nome da doença que podem transmitir? Não. Não. Sim. Não. Sim. Não sei. Talvez. Depende. São necessárias maiores informações. Não entendo de gatos. Gato ou gata? Onde? Comprar, nunca! Já gastei demais com Fifi e Nina. E as unhas? Ai, ai, ai...

Operação adoção. Internet. Gatinha abandonada no Campo de Santana procura lar. E lá fomos nós, eu e a caçula (a mais velha não concordava muito com aquela "novidade") visitar o "orfanato" de gatos mantido por uma veterinária consciente. Lá estava ela. Olhou-nos com seus verdes enigmáticos. Ficamos sabendo: "É exclusivista. Não poderão ter outros, pois ela é ciumenta!" Levamos. Eu sequer sabia como pegar, carregar, alimentar, mexer, etc. Minha filha estava encantada. Sempre ficam. Vamos lá. Veterinário. Compras. Compras. Janelas e portas fechadas. Medo das unhas.

Depois de alguns arranhõezinhos, que pouquíssimo incomodam, a decisão: o nome será "Mia". O miado, de fato, era uma novidade em nossas vidas. Aliás, curiosamente, miado não é um som, são muitos e variados. Quando Mia mia, conversa. Está sempre perto de nós. Não resiste a qualquer tipo de cadarço, corda, barbante. Pega-se neles imediatamente. Limpíssima, usou a caixinha de areia assim que a viu instalada perto da máquina de lavar. Gulosa, devora sua ração, mas não se interessa por nossa comida, com exceção dos iogurtes, uma vez que a mais velha (já interessada...) resolveu lhe permitir uma lambidinha na tampa do "Bliss"... Se Mia nos vê com um iogurte na mão, imediatamente se aproxima, tentando ganhar colo. Aliás, colo é uma exigência. É praticamente impossível sentar no sofá sem ver meu colo invadido por ela, que, sem cerimônia alguma, enrosca-se em nós como um bebê.

Há, entretanto, um algo mais em Mia que me é, particularmente, significativo. Ela não pode ver uma bolsa ou um saco. Imediatamente se enfia nela ou nele e fica por lá, quietinha. Às vezes, ao chegar do supermercado, provoco sua reação. Deixo um saco no chão e espero. Dito e feito. Enfia-se lá, misteriosa em seu gesto. Penso. Será carência ou desejo de partir?

Talvez essa metáfora de Mia seja o que nela mais me comove. Na dúvida entre seu estado de carência e seu espírito de aventura, vejo a mim mesma. Como um espelho. Os verdes olhos de Mia se fizeram espelho. E, em função dela, tenho andado a pensar como andam misteriosos os caminhos de meu próprio amadurecimento.

(Publicado originalmente em Ciranda de Uvas, Editora Opus, 2004. Também disponível em pedagogiaemfoco.pro.br/remia.html)

Absoluta saudade

O mar deste quarto não tem praias,
nem serve de limites. Traz as mágoas,
mas não me leva a ti. Traz os peixes,
mas não fisga a dor, nem cicatriza a fome.

O mar deste quarto é sem graça
e transborda pesadelo para o sonho.
É reflexo da falta que me fazes,
verde corrosivo, azul com teu nome.

O mar deste quarto não tem superfície,
nem me serve pra navegar. Traz teu vulto
como um barco. Traz teus olhos
mas não traz teu olhar.

O mar, neste quarto, solitário,
sem praias, sem barcos, sem mar,
é só a presença da tua ausência,
absoluta saudade de te amar.

(poema publicado no livro Laço e nó (Rio de Janeiro: Elo, 2000)