
Explicando: essa crônica foi escrita em 2006, como homenagem a todas as amigas que chegaram à minha vida como alunas de pintura e se tornaram "minhas meninas", assim como eu me tornei menina delas. Engraçado dizer que, na época, eu me despedia do Rio e me sentia emocionada com a distância. Elas se despediram de mim e se reuniram para estar comigo quando eu fui ao Rio, meses depois. Em 2008, partia eu novamente, agora para a Espanha. E elas, o que fizeram? Despediram-se de mim, comemoraram comigo meu "casamento por acontecer" e demonstraram, mais uma vez, que eram amigas "para sempre". Fui ao Brasil e lá estavam elas me esperando (eu agora acompanhada do maridão e da Isinha) para um café da manhã, com um buquê de rosas vermelhas que ficou materializado para sempre, como elas. Reli a crônica outro dia e resolvi publicá-la como forma de dizer que minhas meninas foram, são e serão um presente constante em minha vida. Beijos a cada uma! Agora a crônica...
As meninas
Não conheci todas as meninas de uma só vez. Elas entraram em minha vida de diversos modos e em diversos momentos, uma de cada vez ou em dupla, às vezes em trio ou quarteto. Por indicação, por amizade, por curiosidade, por necessidade, por solidão, por alegria. Não importa. Sozinhas ou acompanhadas, no verão ou em outra estação qualquer, cada qual, desde a primeira palavra trocada, marcou sua imagem dentro de mim de forma absolutamente única.
E como eram graciosas minhas meninas! Negras, loiras, morenas, mulatas, magrinhas, cheinhas, bem cheinhas; simples, em suas roupas despojadas, vaidosas, em suas roupas quase de festa, sensuais, em seus decotes; senhoris, em seus óculos para as vistas cansadas; juvenis, em suas risadas de meninas - ainda que fossem meninas, adolescentes, balzaquianas, quarentonas e por aí vai. Bem-humoradas, silenciosas, repletas de histórias, discretas, guiadas pela fé, desinteressadas de deuses, amadas por seus companheiros, amando-se sem eles, partes de famílias curiosas e enredadas em afeto e conflito, como são todas as famílias. Amantes de cães e gatos e pássaros; explicitamente avessas à presença de animas; exageradas em medos e culpas, exageradas em generosidade e perdão. Eram, de fato, graciosas como ninguém, minhas meninas.
Habilidosas, é preciso dizer. Umas eram doceiras de mão cheia, sempre lambuzando nossas almas com os sabores achocolatados e os açúcares coloridos que brotavam das muitas travessas nas muitas festas. Outras, rainhas dos salgados, sempre inundando nossos espaços com petiscos criativos, de receita antes secreta pronta a ser generosamente oferecida. Algumas, costureiras fabulosas, volta e meia apresentando criações coloridas e competentes, carregadas de estilo e personalidade. Tantas artistas de cores delicadas e paixão por flores; outras tantas, artistas de forma viva e variada. Quantas vezes as vi trêmulas, ensaiando os primeiros passos para, em seguida, passarem a me ensinar sua dança. Quantas vezes as ouvi inseguras, prenunciando as dificuldades, para, logo adiante, me relevarem toda a sua capacidade de superação. Habilidosas, sim, e muito, minhas meninas. Cada qual a seu modo, com agulha, lápis, pincéis, espátulas, textos, farinhas ou temperos. Cada qual no seu ritmo. Cada qual de forma absolutamente única.
Eu me diverti demais com as meninas. Ora porque uma piadista lançava a palavra cômica no meio dos gestos concentrados de olhos e mãos; ora porque a vida é mesmo engraçada no encontro das coincidências e das situações idênticas que revelam nossa humanidade. rimos dos artistas, das pessoas públicas, das crianças, das graças de nossas crianças, dos equívocos e gafes nossos e alheios, de nós mesmas. E, é claro, rimos muito dos homens. Esses homens tão complicados e óbvios, tão inseguros e fortes, tão nosso e alheios a nós. Definitivamente, rimos muito da vida e deixamos, no ar do ambiente que nos acolhia, um riso perpétuo que sempre acenderá o presente.
Também chorei com as meninas. E as vi chorar e elas assim também me viram. Mais do que isso. Além de presenciarmos os choros umas das outras, tivemos as palavras certas para torná-los mais amenos, menos dolorosos. Sofremos pelos motivos mais variados: da morte à separação; da doença à traição; da dificuldade financeira ao conflito familiar; da solidão à invasão de privacidade. E nossos choros, muitas vezes, sequer tinham lágrimas. Eram choros secretos, que transbordavam na alma e reverberavam sombra em vez de luz. Cúmplices guardávamos nos abraços a certeza da lágrima escondida que morava na outra, pedindo colo e gesto fraterno, pedindo força para secar e se fazer esperança.
Cresci com as meninas. Cresci apoiada por elas, que foram irmãs, filhas, mães, sobrinhas, tias, madrinhas, conselheiras, adivinhas, anjos, braços de Deus na terra as vezes muito ressecada em que vivemos.
Hoje me derramo em gratidão por essas meninas. Carrego cada uma, absolutamente única, na pauta musical que rege meu peito, fazendo vibrar as cordas de minhas emoções. Trago cada uma, absolutamente única, no painel colorido pelas tintas da lembrança boa que atravessa tempos e espaços como uma flor permanente nunca alcançada pelo envelhecimento. Celebro cada uma, de forma absolutamente única, feliz pelo fato de ter vivido a experiência de, um dia, tê-las recebido em minha vida.
Hoje me derramo em saudade, mas não de saudade sofrida, de quem perdeu e lastima... Minha saudade é límpida como um cristal furtacor, que guarda, nas pinturas mais lindas, as faces das meninas.
Hoje me preparo para estar mais distante, no que existe de léguas na palavra distância. No entanto, também hoje me alegro com o reencontro que reafirma o que na palavra distância extrapola as léguas para ser amizade verdadeira.
Absolutamente únicas, minhas meninas viajam comigo. Para sempre.
Amo vocês minhas meninas.
Natal, 2006.
Em tempo: uma homenagem especial à menina Ignísia, que nos deixou cheias de saudades, mas que continua viva na lembrança de seu jeito inesquecivelmente engraçado, ingênuo e picante (ao mesmo tempo), curioso e generoso, carinhoso e cheio de histórias. Certamente as outras meninas assinarão embaixo. Onde quer que esteja, receba os beijos de suas meninas, D. Ignísia!!!!!